Um interessante recorte do Jornal Esquema, publicado em 2 de maio de 1983, veio à tona nos últimos dias e chamou atenção pelo retrato que traça da Iturama de quatro décadas atrás: um município tão extenso e remoto que administrá-lo era um desafio comparável ao de cuidar de um outro estado dentro de Minas Gerais. As palavras são do prefeito da época, Valdecir Pichioni. Quem resgatou o artigo e o compartilhou em um grupo no Facebook foi Daiane Firme, formada em Direito pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Firme vive em Limeira do Oeste e nutre um profundo interesse pelo passado do Pontal do Triângulo Mineiro. Ela tem como hobby vasculhar acervos digitalizados em busca de material histórico sobre a região.
A matéria traz as reflexões de Pichioni sobre uma realidade que misturava território imenso e infraestrutura escassa. Iturama naqueles anos era formada por uma sede, seis distritos e duas vilas interligados por pouquíssimos quilômetros de asfalto. Em suas reivindicações, fica claro que o prefeito via na omissão do governo estadual a raiz de boa parte dos problemas da região. Revisitamos o relato pois, mais do que uma curiosidade histórica, ele ajuda a entender como o mapa que conhecemos hoje começou a tomar forma — com o desmembramento dos então distritos de Carneirinho, Limeira do Oeste e União de Minas cerca de uma década mais tarde.
Segundo o jornal, Iturama ocupava, à época, a 33ª posição em arrecadação de ICM no estado, mas reunia o maior rebanho bovino de Minas Gerais e era o sexto maior município mineiro em extensão territorial. Características que, de acordo com Pichioni, não se revertiam em atenção do governo estadual. A cidade-sede também era a mais distante da capital, Belo Horizonte, entre todos os municípios de Minas.
A descrição do prefeito retrata uma administração sobrecarregada, com 3,6 mil km de estradas rurais para zelar e míseros 9 km de rodovia asfaltada, no trecho da MG-255 que liga a cidade a São Francisco de Sales, Itapagipe e Frutal. A sequência dessa rodovia, que deveria seguir até Porto Alencastro e ligar Minas ao Mato Grosso do Sul, estava paralisada — um entrave para o fluxo de pessoas e o escoamento da produção. Sem um departamento de obras estruturado, o município contava apenas com quatro caminhões basculantes, quando o mínimo necessário seriam dez, e a coleta de lixo na zona urbana era feita por um trator.
Entre as reivindicações que Pichioni fazia ao governo estadual estavam a criação de um distrito industrial, uma Santa Casa, ampliação de escolas, apoio para as obras da rodoviária e mais verba para financiamento da pecuária. Mas o maior sonho do prefeito, segundo o texto, era trazer um frigorífico para Iturama: em 1982, o rebanho local somava cerca de 610 mil cabeças de gado, mas apenas 127 mil haviam sido abatidas aqui naquele ano. Alguns anos mais tarde, o frigorífico chegou e se tornou um motor estratégico para o desenvolvimento da região.





