Numa sala do Centro de Excelência em Cafeicultura, em Varginha, doze pessoas cheiram, provam e classificam xícaras de café buscando notas de caramelo, chocolate, cítrico e avelã. Nenhuma delas é mineira: são produtores, técnicos e pesquisadores da erva-mate vindos diretamente do Rio Grande do Sul. Eles percorreram o país até o Sul de Minas não só para degustar um bom cafezinho mineiro. Vieram à procura das lições que ele pode ensinar.
Entre os dias 6 e 10 de julho, a comitiva participou do curso de Classificação e Degustação do Café, promovido pelo Senar Minas. O grupo foi liderado pela Associação dos Produtores e Parceiros da Erva-Mate do Alto Taquari (APPEMAT), sediada em Ilópolis, no maior polo ervateiro gaúcho. Café e chimarrão estão nas xícaras e cuias de milhões de brasileiros. Mesmo com um consumo tão expressivo, só um deles soube transformar popularidade em cadeia produtiva organizada.
"A erva-mate vive um momento complicado e precisa de uma reestruturação, assim como ocorreu com o café no passado", resumiu o presidente da APPEMAT, Clóvis Romano. Na avaliação do engenheiro florestal Jackson Brilhante, da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, falta à erva-mate justamente o que o café já tem consolidado: uma política pública capaz de qualificar todos os sistemas de produção.
A comparação virou até pesquisa acadêmica. Rosângela Assis Jacques, professora da UFRGS, estuda a erva-mate há anos e levou amostras do café mineiro para comparar de perto a química das bebidas. Cafeína, polifenóis e capacidade antioxidante aproximam naturalmente os dois produtos, agora só falta o aspecto da organização produtiva que os gaúchos vieram estudar.
Os números mostram que o potencial é tão grande quanto o tamanho do desafio, e ajudam a entender a importância da viagem. A erva-mate é cultivada em 173 municípios do Rio Grande do Sul, que produziram quase 275 mil toneladas só no ano passado. Fica claro que, se o chimarrão gaúcho conseguir aplicar as lições que o café mineiro alcançou em categorização, identidade e valor agregado, as perspectivas de crescimento são portentosas.
Para o instrutor do Senar Minas, Roberto Luiz Gregatti, a resposta está no método. "Temos uma metodologia com etapas muito bem-organizadas e controles rígidos, seja no processo de torra, classificação ou degustação”, afirmou. “Acredito que seja isso que eles estão buscando para a erva-mate." Café é café e chimarrão é chimarrão: seguem sendo bebidas diferentes, com suas particularidades. Mas o caminho para valorizar uma pode ter sido pavimentado pela outra.
Fonte: Sistema FAEMG/SENAR





