São duas da manhã numa estrada de terra na zona rural do Pontal do Triângulo Mineiro. Motor desligado, rádio desligado, só o som do vento no canavial iluminado pela Lua quase cheia. Lá em cima, um risco de luz corta o céu noturno em menos de um segundo, e some antes que dê tempo de apontar o dedo. Conseguiu se sentir na cena? Você pode vivê-la de verdade na madrugada desta quinta para sexta-feira (31/8).
É quando a Delta Aquáridas do Sul, uma das chuvas de meteoros mais ativas do ano para quem vive no Hemisfério Sul, atinge seu pico. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), em condições ideais é possível contar até 25 meteoros por hora. Isso quer dizer praticamente um risco de luz cruzando o céu a cada dois ou três minutos, para quem tiver paciência — e sorte.
Apesar de deslumbrante, o fenômeno não tem nada de sobrenatural. A Terra atravessa, todos os anos nessa mesma época, uma nuvem de poeira deixada pelo cometa 96P/Machholz em sua órbita ao redor do Sol. Cada grão dessa poeira, muitas vezes menor que um grão de areia, entra na atmosfera a dezenas de quilômetros por segundo e se desintegra pelo atrito. O rastro de luz que sobra é o que popularmente chamamos de estrela cadente.
Mas, infelizmente, há um grande obstáculo nesta edição do espetáculo — a Lua. Ela ficou cheia na quarta (29) (a chamada Lua do Cervo) e, na noite do pico, ainda estará com cerca de 98% do disco iluminado. Esse brilho todo ilumina o fundo do céu e ofusca o rastro dos meteoros mais fracos. Os mais brilhantes, porém, devem resistir. E tem mais: simultaneamente, ocorre também o pico da Alfa Capricornídeos. É uma chuva menor, de cerca de cinco meteoros por hora, mas famosa pelos bólidos, que são meteoros lentos e extremamente luminosos. Às vezes assumem tons esverdeados ou alaranjados, capazes de furar até a intensa claridade do luar.
A boa notícia é que não é preciso nenhum tipo de equipamento para poder admirar este belo espetáculo da natureza. Nem telescópio, nem binóculo: o fenômeno é feito para ser visto a olho nu. E o Pontal apresenta condições extremamente favoráveis para a observação. Longe das grandes cidades e da poluição luminosa que temos em regiões metropolitanas, com o horizonte aberto típico da nossa zona rural, além do ar seco, nossa região reúne boa parte do que os especialistas indicam para observar o céu estrelado da melhor forma possível.
Para ter mais chance de sucesso, escolha um ponto afastado da iluminação urbana, tipo uma estrada vicinal, uma propriedade rural ou a beira de um rio. O horário mais indicado é entre 1h30 e 2h da madrugada, quando a constelação de Aquário, de onde os meteoros parecem se irradiar, já está bem alta no céu. Ela estará próxima da Lua.
Mas evite fixar o olhar direto no radiante: os meteoros aparecem mais longos e fáceis de flagrar quando observados de relance, olhando para uma faixa ampla do céu. Apesar do luar desta noite, as chances são grandes de você conseguir contemplar ao menos uma estrela cadente — e, por que não, fazer um pedido ao lado de alguém especial. Não precisa de aparelho, nem de curso de astronomia. Precisa só de um relógio marcando 1h30, um pedaço de céu escuro e um pouco de paciência olhando para cima.





