Quando Edson Gabriel Moisés chegou em Iturama, em 1967, atolava-se no barro das ruas sem calçamento e a cidade carecia da infraestrutura mais básica. No entorno do Santuário Nossa Senhora de Fátima, pleno centro da cidade atual, os habitantes costumavam se embrenhar na vegetação do Cerrado para colher frutas silvestres. Mas a chegada de Moisés coincidiu com uma virada de página na história da cidade — e sua participação noticiando esse processo foi de grande importância.
Ele destaca que o prefeito da época, Pedro de Paula, trouxe melhorias na infraestrutura, como asfalto e rede de esgoto. Organizou, também, a primeira festa de aniversário de Iturama, não só para agradar o povo, mas principalmente como uma estratégia para atrair investidores. Essa abordagem estratégica marcou o início de um processo de desenvolvimento mais planejado.
Foi quando Moisés se reuniu com figuras importantes no cenário local para pensar meios de divulgar as novidades que vinham sendo implementadas, contribuindo para o debate público na região. Assim nasceu O Pontal, o primeiro e mais longevo jornal do Pontal do Triângulo Mineiro, fundado e dirigido por Edson Moisés e publicado por mais de meio século, entre 1968 e 2022. Aos 95 anos e esbanjando lucidez, o veterano jornalista comentou os momentos mais marcantes de sua trajetória pessoal e profissional, que se entremeia com a história da própria cidade.
Refletiu também sobre o papel e a importância do jornalismo para a sociedade, celebrando o lançamento de O Pontal News como uma oportunidade de reinventar e manter viva na região aquela que sempre foi sua missão: elevar, mudar, criar e inovar por meio do jornalismo. Sempre com responsabilidade.
A paixão pela profissão era coisa de família: o exemplo veio do avô e dos tios, que publicavam um jornal em Catanduva (SP), cidade onde nasceu e viveu seus primeiros anos antes de se mudar com os pais para Campina Verde. Ele conta que foi “contaminado” ainda criança, aos 11 anos, quando foi conhecer a tipografia do avô. Brincando com as letrinhas, o pequeno Edson se encantou pelo jornalismo. Moisés se orgulha de ter defendido conquistas importantes de Iturama por meio de suas coberturas em O Pontal, como a construção do frigorífico e da usina de álcool. Mas também enfrentou momentos difíceis: chegou a ser ameaçado e quase foi preso por matérias que escreveu.
Confira nossa entrevista com o jornalista Edson Gabriel Moysés:
Como era Iturama quando o senhor chegou aqui, em 1967?
A gente atolava nas ruas, não tinha asfalto, não tinha infraestrutura nenhuma. Mas, com os anos, Iturama foi melhorando. Vieram pessoas para investir, comprar terras, e o povo foi vendo as possibilidades, a posição estratégica da cidade, a amplidão do município... Então começou a migração, Iturama cresceu e segue crescendo, mas por vontade própria. Porque visão política, não teve. Por muito tempo, foram só duas famílias no poder, de quatro em quatro anos, revezavam do A para o B, e isso não trouxe progresso à cidade. Progrediu com as pessoas que vieram, ganharam dinheiro e investiram. Ela é o que é hoje dentro de um plano socioeconômico que foi feito em 1968 pelo governo do Pedro de Paula, um médico que tinha visão ampla. Ele andava com seu carro próprio, um Fusca.
Como o senhor começou no jornalismo e qual é a sua importância para a sociedade?
Vim de uma família de jornalistas, meu avô e meus tios eram jornalistas em Catanduva. Eu era moleque quando fui conhecer a tipografia do meu avô. Vendo aquela movimentação, catando letra aqui, letra ali, todo aquele negócio... Eu falei: “Quando crescer, quero ser igual ao vovô”. Devo ter sido contaminado naquela hora. Quando vim para Iturama, vi que esse chamamento de investidores precisava de mais incentivo. Tinha sido desafiado por ituramenses importantes a trazer minha tipografia de Campina Verde para cá e me estabelecer aqui. Eu aceitei. Então nos reunimos eu, o Dr. Pedro de Paula, Eni Leonel de Paula, Dr. Afonso Celso Praes, Antônio Messias de Carvalho, João Batista Lelis de Barros. Eu tinha a primeira e única tipografia de Iturama. Ficamos dialogando sobre um meio de divulgar a cidade. Eu falei: “a gente cria um jornal”. Assim criei O Pontal, que circulou impresso de 1968 a 2022. Depois tive mais dois anos online, mas desisti. Não havia resposta nem interesse. O jornal aponta, descobre, investiga e dá a sua opinião, os editoriais transmitem o espírito do jornal. Vejo o jornalismo como fonte de cultura, informação, um ponto de apoio à comunidade. É um elemento primordial da divulgação dos fatos, feitos e efeitos.
Gostaria de uma reflexão do senhor sobre as diferenças de fazer jornalismo impresso e online. Como a internet mudou o jeito de produzir e consumir notícias?
Estou meio desatualizado, mas, para mim, o jornal deve ser feito como sempre foi: mostrar o que tem, o que falta, os acertos e os erros. Deve mostrar os fatos, a verdade, aquilo que é e como deveria ser. É preponderante como informativo, mas precisa ser bem elaborado, ter uma apresentação bonita e ser sincero em suas opiniões. O jornal é importante. Não fosse o jornal, não teríamos a internet hoje. Foi evoluindo, a internet veio e suplantou, principalmente com relação aos anúncios. Isso restringiu muito a divulgação impressa, mas acho que ela é primordial. E aqui em Iturama, é uma necessidade, um serviço público. O jornal esclarece ao povo aquilo que o povo fica em dúvida, daí sua importância.
Ao longo desses anos todos, o senhor conversou com muita gente, conhece bem a sociedade de Iturama… Como são as pessoas daqui?
As pessoas de outros estados que vieram para cá se adaptaram ao sistema mineiro: o paulista, o mato-grossense, o goiano, o nortista. Então se resguardam um pouco. Mas a sociedade em si é boa, se bem que individualista. Eu tenho meu grupo, você tem o seu e ele tem o dele. Não é tão unida, é distinta em grupos e classes. Neste contexto, tem quem se abra a dar informações, entrevistas, outros se recusam. Jornalista aqui é visto como fofoqueiro. Na última campanha para prefeito que cobri, fiz uma pauta de entrevista para os candidatos. Só um aceitou. Por quê? Mas viver aqui é gostoso, constituir amizade é coisa fácil. O pessoal é muito receptivo, porém tem suas restrições. Como dizia Floriano Peixoto, “confia desconfiando”. Iturama tem uma sociedade fácil de entender, com pessoas boas, inteligentes, trabalhadoras. E pensam muito em progresso, querem crescer, mas não pensam muito em distribuir.
Qual foi a cobertura que mais marcou o senhor?
Durante uma campanha para prefeito, participei da indicação de Alípio Soares Barbosa: um ruralista de peso, de família tradicional, visionário e benfeitor. Ele foi eleito por três vezes, sinto orgulho disso. Me bati muito para que os ruralistas e pecuaristas formassem uma cooperativa e implantassem um frigorífico aqui. Na época, o rebanho bovino de Iturama era o primeiro do estado. Mas não vingou. Tempos depois, o Eudécio Casassanta, que tinha uma visão muito ampla na ABC de Uberaba, decidiu criar o frigorífico aqui. Foi mudando de dono e hoje é da JBS. Eu me batia muito também pela criação de uma usina de álcool. Num estado do norte, já havia a produção de álcool veicular, mas a matéria-prima era a mandioca. Tinha terreno à vontade aqui. Também não vingou a ideia, mas em seguida veio o grupo Balbo, de Sertãozinho, e criou a usina de álcool, que depois foi encampada pela Coruripe, e começou a produzir açúcar também. Sinto orgulho por ter noticiado tudo isso.
Olhando para o outro lado, teve alguma cobertura que tenha sido especialmente difícil?
Eu publiquei uma vez uma matéria: "Limeira do Oeste, a Nova Las Vegas". Lá tinha jogos de azar como roleta e bacará à vista, na rua. Apesar de ser proibido, lá em Limeira do Oeste tinha concessão porque o delegado daqui recebia propina. Consegui a confissão de um dos banqueiros do jogo. Fui perseguido com revólver na mão. Mas tive o resguardo de um sargento e passou. A outra foi a denúncia que fiz de um bingo em uma fazenda, um juiz estava participando. Ele mandou me prender, quis invadir minha casa, o cachorro segurou. O promotor da época me defendeu e não fui preso. Tive percalços, encontros e desencontros, compreensão e incompreensão. Altos e baixos.
O Pontal acumulou muita credibilidade na região, e agora é como se O Pontal News estivesse pegando o bastão para seguir com sua missão, se adaptando aos novos tempos. Qual é o legado que o senhor deixa e como podemos levá-lo adiante?
Sempre me pautei pelo idealismo, não pelo financeiro. Meu objetivo, através do jornal, era elevar, mudar, criar, inovar. E isso eu sempre fazia com muito critério, muita responsabilidade. Fico satisfeito e orgulhoso de que o nome O Pontal vá surgir novamente sob nova direção, nova tipologia, novas ideias. Gente empreendedora, tempo novo, situações novas também. Eu tinha duas colunas no jornal: o "Meu cantinho", para o editorial, e "O Galo Cantou", para a crítica. Sempre fui elogiado. Se eu mereci ou não, não sei, mas tenho 12 diplomas de honra ao mérito dados pela Câmara daqui e de Limeira do Oeste. Agradeço a ideia de dar continuidade à credibilidade e ao trabalho de O Pontal, levando mais informações, impulsionando o progresso de Iturama e toda a região, e elevando a sociedade também.
Pensando sobre o futuro, qual seria o modelo que a cidade deveria seguir para alcançar seu pleno potencial?
Precisa de um gestor visionário, precisa de projeto para se tornar um polo. Do ponto de vista estratégico e geográfico, a posição é excelente: faz divisa com três estados: São Paulo, Mato Grosso e Goiás. E com Minas Gerais também (risos). Iturama é reconhecida pelo seu potencial. A política precisa trabalhar para melhorar essa vocação, desenvolver polos tecnológicos, trazer indústrias, fomentar o emprego e aumentar a renda, para que se torne um polo atrativo e produtivo. Iturama merece.





