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Iturama

Existem cada vez mais araras-canindé em Iturama, mas elas deveriam estar aqui?

Havia 38 ninhos no final de 2025 — e o número já aumentou. É importante preservá-las na cidade, mas é ainda mais necessário restaurar seu habitat natural

O Pontal News
02/06/2026 - 16:43:00

Por A. J. Oliveira

Na Praça Dona Francisca Justiniana Andrade, no centro de Iturama, os troncos velhos das palmeiras imperiais têm uma aparência sem vida. Quem passa e olha de relance pode até pensar: por que não cortá-los? Mas é só parar por alguns instantes, com um olhar mais contemplativo, para perceber que eles não estão mortos. Muito pelo contrário, são berçários: abrigam ninhos de araras-canindé. Sentar-se num dos banquinhos da praça e observar o comportamento dessas aves é um verdadeiro espetáculo. Elas agem como se a praça fosse delas — e de certa forma é mesmo.

Comecei a Semana do Meio Ambiente desse jeito. Na manhã desta segunda-feira (1), me encontrei com a professora Inês Mendes Pinto, docente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) de Iturama. Conversamos no banco da praça enquanto as araras se exibiam a poucos passos de nós. A professora Inês coordena o Projeto Canindé, uma iniciativa de conservação e educação ambiental voltada para essas aves. Era bem cedo. “Observadores de aves precisam madrugar”, disse, alguns dias antes. Ela segurava sua câmera fotográfica e, entre um registro e outro, me explicava detalhes fascinantes sobre as araras, seus hábitos e particularidades.

A arara-canindé (Ara ararauna) é uma das aves mais emblemáticas e reconhecíveis do Brasil. Com as costas de um azul vibrante e o ventre amarelo vivo, esses animais chegam a viver 60 ou até mesmo 80 anos. É uma espécie monogâmica — formam casais para o resto da vida. Elas se reproduzem a cada dois anos, tempo que leva para que os filhotes aprendam a voar, se alimentar e se tornem totalmente independentes dos pais.

Atualmente, a população se concentra nas áreas centrais do Brasil, sobretudo no Cerrado, o bioma mais ameaçado da América do Sul, o que exige atenção especial. O desmatamento e o tráfico ilegal fizeram com que fosse extinta em alguns locais, como em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Para tentar reverter a situação, o projeto Refauna está reintroduzindo a espécie na Floresta da Tijuca. Após 200 anos, o azul e o amarelo marcantes da arara-canindé finalmente voltaram a ser vistos nos céus cariocas.

Em Iturama, a situação é bem diferente. Elas parecem muito à vontade e bem ambientadas ao contexto urbano, são vistas em grande número sobrevoando a cidade e pousadas nas árvores. No final do ano passado, o Projeto Canindé havia mapeado 38 ninhos ativos nas vias públicas da cidade. Esse número já cresceu. Só na Praça Dona Francisca, passou de 6 para 8.

Pode até parecer uma boa notícia, mas essa presença crescente das araras-canindé na cidade é preocupante. "Se ela veio para cá, é porque o habitat dela está comprometido", diz a professora Inês. "Ela vem em busca de abrigo, de comida. É um indicador de que o meio ambiente está degradado."

A espécie tem predileção natural por fazer seus ninhos em buritis, palmeiras nativas das veredas, aquelas faixas de vegetação densa que crescem ao redor das nascentes do Cerrado. Com o desmatamento e o assoreamento, as nascentes secam e os buritis desaparecem. Ao contrário da arara-azul, que tem dieta e hábitos tão específicos que qualquer desequilíbrio a leva à beira da extinção, a arara-canindé tem uma capacidade notável de adaptação. Foi assim que ela passou a nidificar em palmeiras imperiais, para surpresa dos especialistas.

A palmeira imperial é uma espécie exótica trazida pelos colonizadores europeus. Pode ser vista como representação dos tempos imperiais: suas raízes são estranhas ao nosso Cerrado. Ao fazer seu ninho ali, é como se a arara-canindé, ave das veredas do Brasil profundo, estivesse se apropriando da árvore que simboliza exatamente o processo histórico que destruiu seu habitat.

Araras que educam

O Projeto Canindé foi registrado formalmente em março deste ano, mas nasceu dentro de uma iniciativa maior que existe desde 2015, quando a UFTM começava suas atividades em Iturama. Inês Mendes Pinto veio de Belo Horizonte e ajudou a construir a universidade do zero — ao chegar encontrou apenas um terreno. O projeto original se chamava "Educação Ambiental pela Observação de Aves Urbanas". Com o tempo, à medida que as canindés foram chegando em maior número à cidade, ela decidiu criar uma iniciativa específica para elas.

Seu trabalho, basicamente, tem duas frentes: a primeira, mais urgente, é a conservação imediata. Isso inclui mapear ninhos, instalar placas de identificação, dialogar com a comunidade e com o poder público para evitar que árvores com ninhos sejam derrubadas. A segunda, mais ambiciosa e de longo prazo, é a restauração do habitat natural. Preservar e recuperar as nascentes, replantar espécies nativas como araribá, macaúba e buriti para que, eventualmente, as araras possam voltar para as matas — de onde nunca deveriam ter saído.

"O que a gente faz aqui é preservar o patrimônio genético da espécie para que ela não entre em extinção enquanto a gente resolve o assunto maior", resume Inês. "Mas uma coisa não impede a outra." Um dos marcos do projeto foi a instalação das placas de identificação nos ninhos mapeados pela cidade. Foram 38 placas ao todo, financiadas por uma associação local. Funcionou: quando a pessoa vê a plaquinha, sabe que ali há um ninho e não corta a árvore.

As placas não foram colocadas da noite para o dia, foi um trabalho que levou anos de preparação. "Se eu tivesse chegado e colocado tudo de uma vez, teria sido um problemão. Demorou dois ou três anos até chegar nisso, até que ninguém fosse contra."

Outro pilar do projeto é a escola. A professora Inês costuma levar os alunos à praça de manhã cedo, quando as araras estão nos troncos limpando as penas. Ela distribui binóculos obtidos graças a uma verba destinada ao projeto pelo Ministério Público. E deixa as crianças observarem. Depois, em sala de aula, fazem desenhos de ilustração científica, pesquisam sobre a espécie e aprendem o básico da ornitologia — área da ciência que estuda as aves.

Em uma das turmas, ao fim de um ciclo de encontros, ela perguntou aos alunos o que tinham aprendido. Um deles respondeu: "Aprendi que a gente não deve colocar pássaro em gaiola." Inês não havia falado dessa forma em nenhum momento. "Foi uma conclusão que ele mesmo tirou. Isso é conscientização", disse a professora.

O trabalho de educação ambiental não se limita aos mais jovens. Houve uma experiência com idosos de uma casa de acolhimento que ficava perto da praça. Alguns vinham até mesmo de cadeira de rodas. Ficavam uma hora observando aves, tomando sol e logo começavam a listar de memória as espécies que conheciam da infância. Chegaram a citar mais de duzentas.

Ao redor do projeto foi crescendo também uma rede informal: um grupo de WhatsApp chamado "Amigos das Araras", onde moradores mandam fotos e observações. Alguns dos registros mostram araras comendo pequi, galhos de palmeira sendo cortados para a criação de um ninho em um quintal, um aluno que fez a camiseta de formatura do ensino médio com a imagem da canindé. Há um membro que trabalha em uma loja de mudas e está produzindo araribá para plantar na cidade. O envolvimento da comunidade em um esforço coletivo de ciência cidadã tem se mostrado decisivo. "A gente só preserva aquilo que conhece", diz Inês. "Quanto mais você estuda, mais quer preservar. Se você não sabe nada, vai preservar o quê?", questiona.

De volta às veredas

O Projeto Canindé planeja visitar ainda este ano a sede do Projeto Arara Azul, em Campo Grande (MS), onde uma equipe de ornitólogos acompanha minuciosamente a reprodução das araras na cidade. A ideia é aprender, estabelecer contatos e, quem sabe, implementar também a parte de pesquisa científica aqui em Iturama.

Pensando no futuro, o caminho é a restauração das veredas, a recuperação dos buritis que nasciam às margens das nascentes da região e que foram, em grande parte, desmatados. Sem água, sem buriti e sem seu habitat, a arara acaba ficando na cidade e se apropriando da palmeira imperial. Saem de manhã para comer macaúba, araribá, baru, manga, goiaba dos quintais ou o que mais encontrarem, e voltam no final da tarde para seus troncos secos na praça.

Em agosto, começa a postura dos ovos, que dura até dezembro. Os filhotes levam dois meses para aprender a voar e dois anos para começarem a se virar sozinhos. Depois de adultos, quando encontram seu par, não mais se separam. Ficam juntos por 60 anos, em média. Isso significa que, quando essas araras voltarem para o buriti, as crianças que hoje as observam com binóculos na praça já serão adultos. Talvez sejam elas a plantar as árvores.

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Esta reportagem abre a série especial de O Pontal News em celebração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho.

 

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