Quase 60 anos depois de ter sido originalmente impresso, o papel ganha uma camada de charme especial conferida pela ação do tempo. As páginas ficaram amareladas, quebradiças nas dobras e com as bordas comidas pelo passar de tantos anos. Mas no alto da primeira página, em letra de forma, ainda dá para ler claramente, sem qualquer esforço: "O PONTAL, Ano I, Nº 1". Para ver de perto essa relíquia, a primeira edição do primeiro jornal de Iturama, fomos até a casa do jornalista Edson Moysés — convidado do primeiro episódio do Pontal Cast, que tratou da memória e história da nossa região.
Não poderíamos deixar de mostrar este documento de importância histórica a que tivemos acesso, que ilustra tão bem a conversa memorável entre o Sr. Edson e a Sra. Aldeni Janones.
A capa traz mais detalhes sobre o periódico que fundou as bases do jornalismo ituramense, que décadas mais tarde viria a inspirar a atuação editorial de O Pontal News. "Orgão Informativo Independente a Serviço do Município e Região", com tiragem de 600 exemplares e distribuição quinzenal. No comando, João Batista Lelis de Barros assinava como diretor e redator-chefe, com a professora Eni Leonel de Paula e o Dr. Afonso Celso Praes na revisão.
O editorial de apresentação, assinado pelo prefeito Dr. Pedro de Paula, um dos fundadores do jornal, o definia como "o grito de afirmação de nossa terra" e prometia ser "a ponta de lança a despertar na consciência dos pessimistas, dos derrotistas e dos retrógrados o interesse pelo progresso e bem-estar de nossa gente”. Uma missão grandiosa para um veículo local de quatro páginas impressas à mão — que com o tempo se mostrou à altura de suas aspirações.
Era tudo literalmente feito à mão, de maneira artesanal na antiga Gráfica Iturama, que funcionava na esquina da Rua Santa Vitória com a Rua Campina Verde. Em relato a O Pontal News, o Sr. Edson Moysés descreveu os detalhes do processo de impressão tipográfica manual em uma máquina modelo Minerva: as letras (tipos) eram montadas uma a uma num componedor, a peça que regula a largura da coluna; a prova era tirada com rolo de tinta e pressão manual; depois a composição era presa com cunha numa "rama" de metal, e por fim a impressão final na base da manivela e da alavanca. “Normalmente era eu e o meu filho que ficávamos imprimindo", relembrou o Sr. Edson.
Um retrato da Iturama de 1968
De inestimável valor histórico, cada elemento contido na primeira edição fornece rico material para entender como era a Iturama da virada dos anos 60 pros 70 — do editorial aos anúncios. Boa parte do exemplar funcionou como uma espécie de prestação de contas pública. O jornal publicou o relatório da Prefeitura Municipal sobre o exercício de 1967, então sob a gestão de Pedro de Paula. Alguns dos destaques foram a aquisição e reforma de maquinário pesado, obras de infraestrutura viária como estradas e pontes ligando Iturama a distritos vizinhos e a reorganização de serviços administrativos do município.
Na educação, o Ginásio Estadual de Iturama, então sob direção da professora Maria Sarah Felipe Villaça Lopes, registrava crescimento de matrículas e a autorização, naquele ano, para funcionamento do Curso Normal. Passo decisivo para formar novos professores numa região que, em grande medida, ainda dependia naquela época de gente vinda de fora para dar aula.
Uma análise da capa permite identificar o acontecimento de maior relevância pública naquele momento: a chegada da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida à cidade. O evento gerou imensa comoção popular. A padroeira do Brasil foi trazida pelo arcebispo coadjutor de Aparecida do Norte, Dom Antônio Ferreira de Macêdo, e recebida também pelo arcebispo metropolitano Dom Alexandre Gonçalves Amaral, vindo de Uberaba. Ainda na primeira página, o Lions Clube de Iturama publicou uma nota de felicitações ao novo jornal, assinada pelo Dr. Antônio M. Carvalho, enaltecendo o papel da imprensa para o desenvolvimento da cidade.
Na coluna "O Pontal nos Esportes", assinada por "Tanza", o destaque foi para o bom resultado do time local I.T.C., que goleou a Vila São Sebastião E.C. por 7 a 1. Um olhar atento aos classificados também revela percepções interessantes, pintando o retrato comercial da Iturama de 1968: a concessionária Arakaki & Filhos se dirigia ao “homem da lavoura” para anunciar peças Massey Ferguson, enquanto duas farmácias disputavam espaço — a Santa Rosa, do "Jazinho", e a São Sebastião. Outras marcas que apoiaram o novo jornal foram o Posto Atlantic, que ficava na Praça Dona Francisca, e a tradicional Casa Triângulo, de Enio José Fortunato, que vendia secos e molhados na Praça Santa Rosa. A edição também não fugia do plantão policial: noticiou um brutal assassinato que mobilizou a cidade naquela semana.
Se há uma coisa que ficou clara no primeiro episódio do Pontal Cast, com o Sr. Edson Moysés e a Sra. Aldeni Janones, foi a importância da preservação da memória, da história e da cultura. Trazendo a público o acesso à primeira edição de O Pontal, que por mais de meio século documentou a evolução de Iturama e região, O Pontal News espera estar contribuindo diretamente para esta nobre finalidade. Deixamos aqui registrada nossa grande admiração pelo admirável trabalho jornalístico conduzido pelo Sr. Edson e pelo legado à sociedade ituramense.
Confira as fotos em alta resolução do jornal e, abaixo, o episódio completo do Pontal Cast:







