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Pontal Cast

A revolução dos drones na lavoura: confira alguns destaques do 4º episódio do Pontal Cast

Um GPS perdido num trecho sem sinal levou o empresário Gabriel Freitas, da AGROPULV, até a porteira errada — a do produtor Emerson Gervasio. Quatro anos depois, a soja da fazenda saltou de 75 para 92 sacas por hectare: a dupla explica como o drone muda o jogo na lavoura.

O Pontal News
04/09/2026 - 11:12:00

Era pra ser só mais um dia normal de serviço pesado na zona rural da região do Prata. Gabriel Freitas e seu sócio Bruno Azambuja seguiam o GPS até a fazenda de um cliente novo quando o sinal caiu naquele pedaço de estrada. O aparelho se perdeu e acabou os levando a outro destino. Eles pararam, foram bem recebidos, tomaram um café e bateram um bom papo com o dono da propriedade. Só então caiu a ficha.

"Batemos no lugar errado, rapaz", Gabriel lembra de ter dito ao sócio.

Quem tinha aberto a porteira era Emerson Gervasio, terceira geração na mesma terra, produtor de soja, cana e gado. Ele reparou no carro adesivado, na estrutura do drone atrás, e soltou a pergunta que mudou a história dos dois: "Cês mexem com o quê?"

A conversa toda foi parar no quarto episódio do Pontal Cast, apresentado pelo jornalista A. J. Oliveira e o empresário Ângelo Gonçalves, consultor de O Pontal News e produtor rural. À bancada sentaram-se Gabriel, sócio-proprietário da AGROPULV, empresa de Limeira do Oeste que atende toda a região, e Emerson, cliente dele desde aquele dia.

Emerson já tinha ouvido falar de pulverização com drone, mas nunca tinha visto com os próprios olhos. Até então era ele próprio quem fazia o serviço, no trator com pulverizador de barra, sem cabine, de máscara e roupa fechada naquele calorão. "Aquilo não tinha nem capota", conta. Antes mesmo de a conversa acabar, ele já tinha marcado um teste. E não escolheu um teste fácil.

Na soja existem duas aplicações que separam quem sabe de quem está aprendendo: o pós-emergente e a dessecação pré-colheita. Emerson entregou justamente a segunda. É o serviço que não deixa esconder erro nenhum, já que onde o produto não pegou, a planta continua verde, e a falha fica desenhada na lavoura pra todo mundo ver. "Ou fica bom, ou fica bom", brinca Gabriel.

E no fim deu certo. O consultor que atendia a fazenda foi conferir, aprovou, e Emerson fez a proposta: a partir da safra seguinte, a plantação passava a ser cuidada pela AGROPULV. De lá pra cá já são quase quatro anos de parceria. Gabriel Freitas e Emerson Gervasio contaram esta e muitas outras histórias na bancada do Pontal Cast: o quarto episódio está imperdível tanto para produtores rurais quanto para quem pensa em se capacitar para atuar neste mercado que não para de crescer

Produtividade recorde

A conta que convenceu Emerson não foi a da tecnologia, foi a do pisoteio. Ele fez o cálculo do amassamento do trator, com barra de 12 metros e pneu de 30 centímetros, e chegou a algo entre 8% e 9% da área. Numa lavoura que rendeu 90 sacas, o que ele deixava no chão dava conta do serviço inteiro do drone. "Na época deu pra pagar o Gabriel e sobrou dinheiro. E isso é só amassamento, fora o que eu comprei de semente e de adubo pra pisar em cima."

A produtividade acompanhou. Na mesma área, foram 75 sacas no primeiro ano, 87 no segundo e 92 no terceiro — recorde da propriedade. Parte disso, os dois creditam a um detalhe que só o vôo do drone é capaz de entregar: o turbilhão das hélices abre a planta e leva o produto pro baixeiro, aquela parte que não pega sol e vira berçário de doença fúngica. Esse combo de gota fina e hélice girando cria um vórtice que leva o produto exatamente onde precisa ser aplicado.

Nas contas gerais do setor citadas durante o episódio, a economia de água vai de cerca de 200 litros por hectare para algo em torno de 12. Um autopropelido passa de R$ 1 milhão; um drone de porte profissional sai por volta de R$ 300 mil. E as estimativas apontam redução de custo operacional de até 58% em relação ao modelo tradicional.

Do açougue ao drone

A parte da conversa que rendeu mais silêncio no estúdio não teve número nenhum. Gabriel morou dos 12 aos 18 anos na fazenda do avô, na comunidade da Martinha, em Limeira do Oeste. Fez agronomia em Fernandópolis pegando ônibus todo dia, ida e volta, pra trabalhar no dia seguinte. Passou por horta, por usina, e foi parar num mercado da cidade.

Foi lá que ele decidiu mudar de vida, olhando um colega surdo e mudo dar conta do mesmo serviço que ele. "Eu tenho tudo, sou saudável, e faço o mesmo serviço que ele faz. Preciso ter uma função minha, alguma coisa que eu saiba fazer de verdade." Pediu pra aprender um ofício ali dentro, foi pro açougue, aprendeu, acabou tomando conta do setor.

Aí veio a decisão mais difícil. Apareceu um projeto de jovem aprendiz em parceria entre o Senar e a usina Coruripe, com seis meses de formação e seis meses passando por todos os setores agrícolas. A bolsa era de R$ 450, enquanto no mercado ele ganhava R$ 2.500. Difícil foi convencer o pai de que valia a pena: "Você tá ficando doido, vai perder um ano deixando de ganhar 2.500 pra ganhar 450?", foi questionado. No fim Gabriel acabou entrando no programa, e saiu como destaque entre os participantes. Depois vieram pátio, logística, controle agrícola e, por fim, topografia — o setor que juntava GPS, agricultura de precisão e drone no mesmo lugar.

Nesse período a rotina era acordar às 5h30, trabalhar o dia todo, tomar banho em dez minutos, pegar o ônibus da faculdade às 17h e chegar em casa à 1h da manhã. O empurrão final veio de um vídeo no TikTok, com meio milhão de visualizações, de um drone pulverizando. Num raio de 250 quilômetros dali, não tinha ninguém fazendo aquilo. Ele foi atrás de quem sabia, ouviu de uma empresa que a informação custava R$ 2 mil por uma hora de telefone, desistiu e voltou ao dono do vídeo viral. Era um colega de faculdade.

"Você dorme trabalhando e acorda sem trabalhar"

Passada a parte bonita, Gabriel fez questão de desmontar a fantasia que circula nas redes: tem vídeo por aí prometendo 100 hectares por dia e R$ 15 mil no bolso. A rotina real é puxada, começa às quatro da manhã, para no sol quente, volta às cinco da tarde e às vezes só termina às duas da madrugada. O trabalho é concentrado nos meses de colheita, de outubro a março, com um respiro na maturação da cana. Um dos gargalos mais complicados é a manutenção, que ainda é escassa, difícil de achar justo no pico da safra. "Você dorme trabalhando e acorda sem trabalhar", resume, quando o drone quebra e não tem como voar no dia seguinte.

Ele já viu gente comprar equipamento empolgada e trocar por uma camionete dois meses depois. Também já viu, na própria pele, o preço do cansaço. Depois de quase quatro anos sem um acidente sequer, chegou o dia em que tudo deu errado: a carreta quebrou, o freio do trailer pegou fogo, antes de uma operação que começava às 20h30. E foi nesse serviço que o drone dele acabou batendo numa rede de energia que não tinha sido mapeada. A fazenda ficou sem luz, o equipamento virou, nas palavras dele, churrasco. Na época, não tinha seguro.

Hoje a estrutura da AGROPULV tem quatro drones, três de 70 litros e um de 40 na reserva, e dois pilotos. Pra dimensionar a velocidade do setor: Gabriel começou em 2021 com um drone de 10 litros, e hoje já existe equipamento de 100. Quando ampliamos para a escala nacional, estima-se que o mercado brasileiro deva movimentar algo em torno de R$ 2 bilhões neste ano.

O que está sendo discutido na Assembleia

Enquanto o setor cresce, a Assembleia Legislativa de Minas discute como regular a prática. O PL 4.440/2025, do deputado Leleco Pimentel (PT), propõe distância mínima de 250 metros de áreas sensíveis, altura máxima de voo de 5 metros acima da cultura, vento de no máximo 10 km/h, proibição de aplicar entre 10h e 16h, aviso prévio de 48 horas aos vizinhos num raio de mil metros, registro da empresa no IMA e ART assinada por responsável técnico. A proposta foi apensada a um projeto anterior, o PL 307/2019, de teor mais restritivo.

Gabriel não é contra a criação de regras, mas não concorda com proibição ou excesso de medidas restritivas. "Qual é o risco de prejudicar quem faz certo?", devolve. Pra ele, o caminho é fiscalizar com rigor, justamente pra tirar do mercado quem opera no escuro. Ele conta que já parou em beira de rodovia pra puxar conversa com um piloto e ouviu a resposta que ninguém quer ouvir: o rapaz não sabia sequer dizer qual produto estava aplicando.

Sobre a altura de cinco metros, ele acha que a regra não muda nada na prática — ninguém pulveriza soja voando mais alto que isso. O protocolo que a empresa segue, aliás, já contempla boa parte do que o projeto pede: mapear a área, checar se o produto tem registro pra aplicação aérea, olhar o entorno em busca de nascente, pomar, apiário ou casa, pedir a autorização de voo e só então subir. E respeitar os três limites que ele aprendeu no curso de capacitação, que são temperatura de até 30 graus, vento de até 10 km/h e umidade relativa a partir de 55%.

Tem muito mais na conversa

Falamos também dos três maiores gargalos da soja no Pontal segundo Emerson (clima, margem apertada e mão de obra), e daquela frase que ficou martelando no estúdio: a dificuldade em encontrar quem queira trabalhar na roça. O que muitos não sabem é que o salário de trabalhadores rurais bem qualificados chega até a superar a remuneração de profissionais com formação acadêmica.

Teve a história dos cachorros de caça foxhound americano criados na família há três gerações, e a do sujeito de Mato Grosso que trocou um touro de central de inseminação por cachorro de caça. Sem contar o cliente da região que deixou o uniport parado no barracão, passou a maturação de cana inteira pro drone e viu o dano da broca cair de 5% ou 6% pra menos de 1%.

Deu pra falar ainda de catação química com GPS, do pré-emergente na cana que o Emerson ainda faz de trator, do porquê de o drone estar tomando espaço da aviação agrícola e da resposta do Gabriel pra quem tem pouca terra e acha que essa tecnologia não é pra ele.

O episódio completo está no vídeo logo abaixo.

PONTAL CAST #4: DRONES NA LAVOURA

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