Em maio, um filhote de onça-parda apareceu abandonado em meio a um canavial perto de Iturama. Foi resgatado pelo Corpo de Bombeiros e Polícia Militar de Meio Ambiente e, em seguida, levado para receber os primeiros cuidados de um cardiologista que virou referência no acolhimento de animais silvestres na região: o Dr. José Ribeiro. O bichinho batizado de Afonço chegou emagrecido, cheio de carrapatos e com diarreia. Depois de passar dois meses sendo cuidado com carinho, tomando leite na mamadeira, recuperou-se e hoje segue seu tratamento em um hospital veterinário de Uberaba, recuperando peso para ser reintroduzido à natureza.
A história de Afonço abriu o quinto episódio do Pontal Cast, gravado com dois nomes que viraram verdadeiros pilares da proteção da fauna e do meio ambiente no Pontal do Triângulo Mineiro: o subtenente da reserva José Cleiton Dias de Oliveira e o médico José Ribeiro Garcia.
Cearense de nascimento, Cleiton entrou na Polícia Militar em 1995, aos 19 anos. Formou-se em Biologia ainda na ativa e hoje, já na reserva, cursa o quarto período de Direito, mirando trabalhar com consultoria ambiental. Comandou o Grupo de Polícia Militar de Meio Ambiente de Iturama de 2013 até sua aposentadoria, em julho de 2026.
José Ribeiro é cardiologista formado em Uberaba, mas sua ligação com o meio ambiente vem da família: mais especificamente do pai, um gari analfabeto que ele descreve como um ambientalista nato. Outro episódio que reforçou seu amor pelos animais silvestres foi uma passagem pelo Instituto Butantã, onde aprendeu a tratar acidentes com cobras. Hoje, o médico ambientalista é a referência da cidade tanto para picadas de serpente quanto para o resgate de corujas, gambás, papagaios e praticamente qualquer bicho que apareça precisando de cuidado.
Parceria de décadas
Os dois convidados se conheceram no milênio passado, em 1996, quando José Ribeiro dava aulas de defesa pessoal e judô para a turma de Cleiton no curso de formação de soldados. Mas a parceria só se aprofundou em 2012, quando Cleiton assumiu o comando da ambiental em Iturama. De lá pra cá, criou-se um procedimento que virou rotina: a polícia resgata, aciona o doutor e ele assume o tratamento — de graça em sua própria casa.

Entre os casos marcantes que os dois lembraram no podcast está a apreensão de 115 filhotes de papagaio numa única ocorrência de tráfico de animais, um volume que dá a real dimensão dos desafios de atuar na proteção ao meio ambiente no Pontal. Também contaram a emocionante história de uma tamanduá-bandeira grávida, resgatada com as patas queimadas num incêndio. Tratada com muito carinho pelo Dr. José Ribeiro, ela não apenas sobreviveu como conseguiu dar à luz dois filhotes saudáveis. Meses depois, voltou ao Cerrado.
"Não trato como bicho de estimação"
É assim que o Dr. José Ribeiro resume sua relação com os animais que passam pela sua casa: o objetivo nunca é criar apego, mas sim devolver à natureza. Os bichos ficam sob seus cuidados só de passagem, até se recuperarem e poderem voltar a seu habitat natural. Para dar conta do serviço voluntário, o doutor recebe o apoio de parcerias locais, como supermercados e casas de carne, que ajudam com doações de alimentos. Veterinários da região também colaboram, como o Dr. Lucas, da Vet Center, em casos que exigem tratamento especializado.
Com o passar dos anos, a proximidade entre o Dr. José Ribeiro e o então Sargento Cleiton transcendeu a esfera profissional e virou pessoal. Tornaram-se compadres: o policial aposentado admira a dedicação voluntária do médico; o doutor valoriza o cuidado e o empenho com que a polícia trata a fauna que resgata.
Cuidar da natureza
No bloco mais técnico da conversa, Cleiton chamou atenção para o avanço do desmatamento no Cerrado mineiro, que subiu 72,5% no último levantamento, puxado pela expansão agrícola e pela supressão de árvores isoladas. Ele também falou sobre como a fiscalização mudou nos últimos anos, com o uso de satélites e monitoramento remoto permitindo agir direto nos focos de irregularidade.
O Dr. José Ribeiro aproveitou ainda para desfazer crendices: contra picada de cobra, o único remédio é atendimento médico, nunca soluções à base de raízes ou benzimentos. E, ao avistar uma onça, a recomendação é simples: manter o máximo de distância possível. Caso ela esteja perto, tentar manter o sangue frio de não sair correndo, evitando assim ser encarado como presa. Na zona rural, estampidos como fogos de artifício podem afastar o animal sem feri-lo.
Cuidar de si próprio
O momento mais pessoal do episódio veio quando o subtenente Cleiton contou como o Dr. José Ribeiro o ajudou a reconhecer e enfrentar um quadro de depressão. Aproveitando o Setembro Amarelo, ele deixou um recado direto: cuidar do meio ambiente é importante, mas cuidar uns dos outros também é fundamental. Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, o CVV (188) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.
Para fechar, os dois deixaram um recado a quem sonha em trabalhar com meio ambiente aqui no Pontal: estudar muito, agir com responsabilidade e escolher a profissão por vocação. Porque é assim, segundo eles, que se muda alguma coisa de verdade.
PONTAL CAST #5: CUIDAR DO MEIO AMBIENTE
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Toda semana, a bancada do Pontal Cast vira palco de uma nova conversa com as pessoas e os temas que movem o Pontal do Triângulo Mineiro. Novos episódios do podcast vão ao ar na quinta-feira, às 18h: inscreva-se no YouTube e ative as notificações para assistir, siga-nos no Spotify se prefere ouvir e acompanhe a gente no Instagram e no TikTok para não perder nenhum corte. Aqui, a gente triangula histórias. Do Pontal, pro Pontal.
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