"Não toma isso não, é um perigo, não tem valor para nada", alertou o cardiologista José Ribeiro Garcia, convidado do quinto episódio do Pontal Cast, sobre um produto que ele vê circular há anos em Iturama e região: o Específico Pessoa. Trata-se de uma garrafada vendida como remédio universal contra picada de cobra e qualquer tipo de animal peçonhento, mas também supostamente ajudaria contra queimaduras e torções. Segundo o médico, não passa de uma perigosa crendice sem comprovação científica.
Para ilustrar o risco, o Dr. José Ribeiro contou um caso concreto. Um conhecido seu, já com insuficiência renal e em hemodiálise, tomou o produto em casa após ter sido picado por uma cascavel, mesmo sabendo do quadro de saúde. O perigo, segundo o médico, não é só a falta de efeito: é a falsa sensação de proteção. Muita gente é picada por uma cobra não peçonhenta, toma o Específico, não sente nada e passa a acreditar que o remédio funcionou.
Mais de um século sem comprovação
O nome do produto é uma homenagem ao médico de sobrenome Pessoa que o criou, na década de 1920, a partir do extrato do tubérculo conhecido como cabeça-de-negro ou raiz de cobra (a raiz nordestina realmente lembra uma cobra). Uma versão do produto também circula sob o nome comercial de composto P. Esser, fabricado em Santa Catarina, embora frascos produzidos em Trindade, Goiás, também sejam comuns. Desde então, se espalhou por casas agropecuárias de praticamente todo o país, mais concentrado no Norte e no Nordeste, mas presente também no Centro-Oeste e no interior de Minas.
Em artigo publicado pelo Instituto Federal Goiano, pesquisadores realizaram um estudo de bioquímica que testou o produto vendido em uma feira livre de Ji-Paraná (RO), e não encontraram nenhuma evidência de que ele tenha efeito citotóxico ou antioxidante relevante. Apesar disso, a bula alega eficácia contra picadas de cobra, aranha, escorpião, abelha, arraias, além de queimaduras, ferimentos e contusões, com resultados em 24 horas.
Em outras palavras: o que está escrito no rótulo não se sustenta quando testado em laboratório.
O próprio Instituto Butantan já testou o produto contra o veneno da jararaca, responsável pela maior parte dos acidentes com cobra no Brasil, e não encontrou eficiência alguma. Ainda assim, é comum que moradores de áreas rurais, antes de entrar no mato, tomem um belo gole do Específico e carreguem o produto como um forma de precaução.
Apreensão em Trindade (GO)
Médicos e cientistas há anos soam o alarme sobre o tal produto, mas o alerta não se restringe à teoria. Em setembro de 2025, a Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Consumidor de Goiás (Decon), em ação conjunta com o Ministério da Agricultura, apreendeu numa fábrica clandestina em Trindade mais de dois mil frascos do Específico Pessoa avaliados em cerca de R$ 100 mil, considerando que cada frasco era vendido por aproximadamente R$ 50. O produto não tinha registro na Anvisa, e a fabricação não tinha autorização de nenhum órgão.
O responsável pelo estabelecimento responde por crimes contra as relações de consumo e enfrenta a suspensão das atividades enquanto a própria bula do produto chegava a se apoiar em registros de 1920 para se apresentar como cura infalível, mesmo sem validade legal.
A investigação também constatou o que muitos biólogos já denunciam nas redes: o rótulo do Específico promete curar, além de picadas de animais peçonhentos, problemas que não têm nenhuma relação com veneno. É comum que as pessoas acreditem que a poção cura de tudo, da hemorroida ao azar no amor.
Por que parece funcionar
O biólogo Cláudio Machado, dono do canal Papo de Cobra, tratou do tema em participação no podcast Inteligência Ltda. Segundo ele, o produto e outros parecidos sobrevivem porque a experiência das pessoas parece confirmar o efeito, quando na verdade prova outra coisa. Quem toma o remédio e passa bem, na maioria das vezes, foi picado por uma cobra não peçonhenta, levou um "bote seco" (picada sem inoculação de veneno) ou recebeu uma dose pequena demais para fazer mal.
Ele também aponta uma origem histórica para o mito de que toda cobra de cabeça triangular é perigosa: livros antigos traduzidos da Europa, onde as espécies são diferentes das brasileiras, foram aplicados aqui sem ajuste. E reconhece que desmentir essas crendices costuma gerar hostilidade, porque as pessoas sentem que o questionamento científico atinge a memória de familiares que usavam e recomendavam o remédio.
Já o biólogo Henrique, conhecido no YouTube como o Biólogo das Cobras, ao repercutir a apreensão em Trindade, chamou atenção para outro risco: usar o produto em um animal de estimação picado por uma cobra, ou em um bezerro, por exemplo. Sem sequer saber se a espécie era peçonhenta, o uso pode piorar o quadro em vez de ajudar, sobretudo se o bicho já tiver outros problemas de saúde.
Recado final
Segundo o Dr. José Ribeiro, o alerta vale tanto para gente quanto para bicho: em caso de picada de cobra, escorpião ou aranha, o único caminho seguro é buscar atendimento médico imediato. Remédio caseiro, por mais tradicional que pareça, de maneira alguma substitui o soro antiofídico, e pode custar caro justamente para quem mais precisa de socorro rápido.
Pontal Cast #5EM DEFESA DO MEIO AMBIENTE:
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