Uma publicação no Instagram rendeu à tatuadora uberlandense Brenda Stefani, conhecida profissionalmente como Nimona, tanto elogios quanto uma onda de críticas nas últimas semanas. O motivo é uma campanha lançada durante o Setembro Amarelo que oferece desconto de 50% em tatuagens voltadas a cobrir ou ressignificar cicatrizes de automutilação.
O post foi compartilhado 8,8 mil vezes, recebeu 3,6 mil curtidas e centenas de comentários, incluindo reações muito duras. Um deles chama a ação de "campanha pró-mutilação"; outro sugere uma “marketização do suicídio”, e tantos enxergam como um incentivo às pessoas a se cortarem em busca do desconto. Não faz sentido, já que a ferida não cicatriza em poucos dias.
Entre os comentários, o do psicólogo Carlos Andrade levantou um debate importante. “A tatuagem pode, para algumas pessoas, representar uma escolha legítima de ressignificação, mas é importante que essa mensagem não transmita a ideia de que a cicatriz precisa ser apagada ou escondida para que a pessoa possa seguir em frente”, escreveu, destacando a importância do acolhimento e do cuidado com a pessoa.
Do outro lado, também apareceram diversos relatos de quem já recorreu a esse tipo de tatuagem e parabenizou a iniciativa, ou de quem possui as cicatrizes e gostaria de cobri-las ou ressignificá-las. Em entrevista a O Pontal News, Nimona rebateu as críticas. "Minha intenção nunca foi e jamais será incentivar a automutilação", afirmou. Ela conta que a proposta nasce de uma experiência pessoal: "eu já passei por uma fase difícil da minha vida e também já me automutilei. Por isso que esse projeto tem um significado importante pra mim."
Desde o lançamento, a tatuadora já realizou seis procedimentos dentro da ação e tem outros agendados. Ela optou por não divulgar todos os trabalhos, numa tentativa de preservar a privacidade de quem procura o serviço: "eu só compartilho quem realmente se sente confortável", explicou.
"A arte curou uma ferida que ia muito além da pele"
Um dos relatos que Nimona recebeu ilustra bem o efeito que ela diz buscar com o projeto. Compartilhado com a reportagem, o depoimento é de um cliente atendido dentro da ação, já com a tatuagem cicatrizada: "hoje, toda vez que me olho no espelho, não lembro mais da dor do meu passado, e sim, o que vejo hoje é a superação, coragem e um novo começo." A mensagem segue agradecendo por ela ter colocado "tanto carinho e sensibilidade" no trabalho, e afirma que "a arte curou uma ferida que ia muito além da pele."
Um dos pontos que Nimona destaca é o peso do julgamento que envolve o tema, muitas vezes vindo até da própria família de quem tem as cicatrizes. Segundo ela, alguns clientes relataram vergonha até de procurar um profissional, com medo de serem julgados pelo próprio tatuador durante o atendimento.
No aspecto técnico, a tatuadora afirma que cobrir uma cicatriz exige mais cuidado do que tatuar pele sem marcas, já que cada uma cicatriza de um jeito e pode ter textura e rigidez diferentes. Por isso, diz avaliar cada caso antes de decidir o traço e a técnica que vai adotar.
Setembro Amarelo é o mês nacional de prevenção ao suicídio e valorização da vida. Quem precisa de apoio psicológico pode contar com o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível 24 horas, todos os dias.





