Antes de qualquer palavra, o oitavo episódio do Pontal Cast começa com o som de um berrante. Karina Berranteira leva o instrumento à boca e solta o toque de saída, aquele que, nas comitivas, acordava a boiada antes de pegar a estrada, e por alguns segundos o estúdio de O Pontal News vira pouso de boiadeiro. Daí em diante, a conversa passeia por Barretos, pelas fazendas onde as duas convidadas cresceram e por uma tradição que, nas palavras da própria berranteira, “não pode deixar morrer”.
Dividindo a bancada com ela está a cantora e compositora Maria Fernanda, de Iturama, que decidiu ir sozinha à Festa do Peão de Barretos deste ano e voltou com histórias de sobra, de palcos conquistados no improviso a um karaokê com a dupla Felipe e Rodrigo que bombou nas redes. Karina, por sua vez, saiu de lá com o quinto título no concurso de berrante da festa, conquistado no domingo, 23 de agosto, durante a tradicional Queima do Alho.
Não foi à toa que o episódio estreou em 15 de outubro, Dia do Professor. Além de competir, Karina ensina o instrumento de graça em Limeira do Oeste, ofício cada vez mais raro, e encara isso como uma missão: “A gente tá querendo manter sempre a tradição, não deixar acabar”.
Barretos 2026 ainda rendeu um motivo extra de orgulho para quem é de Minas, já que o pódio feminino de berrante ficou inteiro com mineiras. Karina levou o primeiro lugar, Rarissa Lombardi, de Itapagipe, ficou em segundo e Nicole Berranteira, de Sacramento, em terceiro. “As mineirinhas não tão pra brincadeira”, resumiu a campeã, aos risos.
Vinte e cinco dias até Barretos
Até este ano, Barretos era um sonho distante para Maria, que nunca tinha pisado na festa. O convite veio de Gustavo Paloni, o Veterinário das Américas, a 25 dias da abertura, quando boa parte do público já tinha se programado com um ano de antecedência. Ela topou e transformou a aventura numa série de vídeos no Instagram, “25 dias até Barretos”, sem saber se conseguiria mesmo chegar lá. No segundo vídeo, já estava comprando o ingresso. “Ou eu vou mudar minha vida a partir disso aqui, ou eu tô fazendo a compra mais compulsiva da minha vida inteira”, lembra, antes de brincar que até hoje não sabe quem foi mais doida, ela por ir ou a mãe por deixar.
Sem estar na programação oficial, a ituramense cantou em quase todos os palcos que encontrou, com exceção do Amanhecer e do Principal, os mais disputados. Pediu para dar uma canja num show no camping, foi chamada pela mesma dupla para o palco da Brahma duas horas depois e, num karaokê, esperou o momento certo para pedir uma música a Felipe e Rodrigo. O segredo, conta, é chegar com estratégia, conhecer a grade, ter repertório na ponta da língua e cultivar amizade com as equipes dos artistas, sem forçar nada. “Um não você já tem”, ensina.
Foi também nessa reta final que Maria se aproximou de Pedro, o Berranteiro das Américas, que voltou do Texas a lombo de mula e encerrou em Barretos uma expedição de três anos pelo continente. Ela alcançou a comitiva em São Francisco de Sales, de violão a tiracolo, cantou com o grupo nos pousos da viagem e acabou ganhando dos amigos o apelido de “cantora das Américas”.
Pela mesma estrada, conheceu o lado solidário da festa. Em setembro, esteve no Hospital de Amor, em Barretos, na entrega de R$ 1,222 milhão arrecadados pelos Cavaleiros de Fé, e visitou a ala infantil. Diz que foi ali que entendeu que os encontros de muladeiros e a Queima do Alho vão muito além da diversão, porque têm um propósito por trás.
Um berrante escondido no guarda-roupa
Bem longe do Pontal, em Brasnorte, no Mato Grosso, começa a história de Karina. O pai conduzia boiadas, e a menina se encantava com os berranteiros das comitivas a ponto de pegar o instrumento escondida no guarda-roupa para treinar. O irmão chegou a aprender, mas desistiu porque o bocal cortava os lábios. Ela insistiu, e o pai, que no começo duvidava, acabou virando o maior incentivador. A primeira arena, ainda em Brasnorte, veio acompanhada de muita vergonha, uma timidez que ela diz carregar até hoje.
A família se mudou para Limeira do Oeste em 2007 e, dois anos depois, um dos organizadores da Queima do Alho sugeriu ao pai que levasse a filha para competir em Barretos. Na estreia, em 2009, ela ficou em terceiro lugar e, de lá para cá, colecionou pódios até chegar ao penta. O pai, que morreu há cinco anos, segue presente em cada conquista. “Meu pai foi meu grande incentivador”, diz Karina, que dedica a ele todos os títulos e conta que as vitórias mais recentes, sem ele por perto, tiveram uma emoção ainda maior.
O episódio também resgatou um vídeo do canal dela no YouTube, gravado em 2014 num rodeio em Alexandrita, distrito de Iturama, que já passa de 1,8 milhão de visualizações. A lembrança rendeu um carinho especial pela vizinhança: “Iturama, Alexandrita, Carneirinho é uma segunda casa para mim”.
Os cinco toques, ao vivo no estúdio
Quem assistir ao episódio vai ouvir, um a um, os cinco toques cobrados no concurso de Barretos, e cada um deles tinha função certa na lida. O de saída põe a boiada no estradão; o estradão acompanha o gado pela estrada; a queima do alho chama os peões para a boia; o rebatedouro é o alerta para um estouro de boiada; e o floreio é o toque livre, aquele que o berranteiro solta no fim do dia, quando a comitiva descansa. Na disputa, três juízes avaliam cada execução, e até a postura conta, com uma mão no berrante e a outra solta ou na cintura.
Esse saber hoje passa de geração em geração nas aulas que Karina dá em Limeira do Oeste, às terças e quintas, das 18h às 20h, oferecidas de graça pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. A turma reúne oito ou nove alunos, de adolescentes entre 12 e 15 anos a adultos interessados, inclusive gente de Carneirinho, e, para alegria da professora, tem mais meninas do que meninos, entre elas a sobrinha Isabele. “Basta ter interesse de querer aprender e dedicar, que aprende rapidão”, garante.
Para quem duvida do fôlego que o instrumento exige, o Rodeio de Perguntas tirou a prova. Num duelo proposto no quadro, Karina sustentou o berrante por 15,47 segundos, enquanto Maria segurou uma nota de “Galopeira” por 12,15. A cantora já tinha jogado a toalha antes mesmo de começar.
Orgulho de ser daqui
Boa parte da conversa gira em torno do que as duas levam na bagagem quando sobem num palco ou numa arena longe de casa. “Eu não tô carregando esses títulos, esse nome só pra mim”, resume Karina. Maria conta que, em Barretos, a primeira pergunta era sempre onde fica Iturama, e que responde apontando o bico do passarinho no mapa de Minas. Teve até conterrâneo que a reconheceu no palco e ficou esperando ela descer só para dizer que também era da cidade.
Sobre o sertanejo de hoje, Maria defende espaço para o que toca no rádio sem deixar de lado Tião Carreiro e as modas que contavam a vida real das comitivas, como as viagens a cavalo que o avô fazia. No Pontal, diz, o público ainda pede modão, e em São Paulo ela faz questão de apresentar a quem não conhece. As duas também falam com franqueza sobre a valorização dos artistas da terra e deixam um recado para as meninas da região que sonham com o palco ou com o berrante: “Nunca deixe ninguém dizer para você que você não consegue”, aconselha Maria.
Entre uma história e outra, a cantora pega o violão para mostrar “Você não me mereceu”, uma das primeiras músicas que compôs, e é dela também a voz que fecha o episódio, com “Tocando em Frente”, clássico de Almir Sater e Renato Teixeira. Para 2027, Karina já tem Barretos de novo no horizonte, além de um concurso em Iporá, enquanto Maria garante presença nos 11 dias da próxima festa, agora mirando a programação oficial.
Ficou muita coisa boa de fora, e vale assistir ao episódio completo para ouvir sobre o Bastião, o border collie da expedição que virou xodó da cantora, os perrengues de quem dorme no carro entre um show e outro, o jeito como Maria escolhe os temas das músicas que compõe e as respostas do Rodeio de Perguntas, incluindo a polêmica sobre qual festa é melhor, a de Iturama ou a de Limeira.
Pontal Cast #8: Voz e berrante
Sobre o Pontal Cast
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