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Pontal Cast

"Eu cuido de mim para cuidar dos meus": confira alguns destaques do 9º episódio do Pontal Cast

Diagnosticada com câncer de mama aos 38 anos, a ituramense Katiude Cavalhieri divide a bancada com a mastologista Letícia Garcia e a psicóloga Maria Amélia Mamede numa conversa sobre prevenção, diagnóstico precoce e o que a doença muda dentro de casa

O Pontal News
23/10/2026 - 14:37:00

Num dia comum de 2018, com o marido em viagem e a casa só para as duas, Katiude Cavalhieri brincava com a filha Ana Sofia, então com 5 anos, enquanto escovava os dentes da menina. Num dos movimentos, ao erguer o braço diante do espelho, reparou num pequeno afundamento na pele da mama direita, que desaparecia assim que ela baixava o braço. Terminada a brincadeira, fez o autoexame e sentiu um carocinho na ponta dos dedos.

É com essa cena que começa o nono episódio do Pontal Cast, dedicado ao Outubro Rosa e o primeiro a reunir três convidadas na bancada do podcast de O Pontal News. Ao lado de Katiude estavam a mastologista Letícia Garcia, que atende no Centro Clínico de Iturama, e a psicóloga Maria Amélia Mamede, da clínica MedOrthos, que acompanhou de perto o câncer de mama da irmã.

O assunto pede atenção. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra mais de 78 mil casos novos da doença por ano, mais de 8 mil deles em Minas Gerais. Quase oito anos depois do diagnóstico, Katiude fala da própria história sem rodeios, com fé e com uma boa dose de bom humor.

Do espelho à biópsia

Logo no dia seguinte, Katiude já fazia um ultrassom no consultório em frente ao trabalho. A médica percebeu que algo não ia bem e, à base de telefonemas, conseguiu encaixar a biópsia em Rio Preto, onde a espera prevista era de 15 dias. No meio do caminho havia uma viagem de trabalho a Araxá, que ela quis cancelar. Quem insistiu para que fosse foi o marido, Juliano, com o argumento de que ninguém sabia ainda se era ou não câncer, e de que ficar em casa remoendo não ajudaria em nada.

O resultado veio em pouco mais de 20 dias, já com o exame imuno-histoquímico: carcinoma. Até ali, ela não tinha contado nada aos pais nem às irmãs, porque a mãe enfrentava na mesma época um câncer de ovário, doença que mais tarde a levaria. Katiude só foi a Campo Florido dar a notícia quando já tinha nas mãos o diagnóstico, os nomes do oncologista e do cirurgião plástico e o plano de tratamento.

Perguntada sobre o primeiro pensamento diante do laudo, responde de bate-pronto: “Morte não foi”. A referência vinha de casa. Desenganada pelos médicos com dois anos de vida, a mãe viveu mais nove, nunca reclamou e repetia uma palavra aos filhos, disciplina. “Ela me ensinou como eu teria que me comportar, como eu teria que passar”, lembra.

A cabeça raspada em família

Como o nódulo tinha 1,5 centímetro e foi descoberto cedo, Katiude pôde ir direto para a cirurgia, cerca de um mês depois do diagnóstico. Decidida, pediu a retirada das duas mamas, embora o plano inicial previsse só uma, e saiu do centro cirúrgico já com as próteses definitivas. Dos seis linfonodos retirados, um estava comprometido, e por causa dele vieram seis ciclos de quimioterapia e 21 sessões de radioterapia, em Uberaba. Ao todo, foram dez meses de tratamento, e a última quimio caiu justamente no dia do aniversário dela.

Se alguém perguntar o que mais doeu, porém, a resposta não é a cirurgia. “Infelizmente, eu posso te dizer que foi a perda do cabelo”, conta. Para que a filha não levasse susto, a família transformou o momento em brincadeira, e Katiude, Juliano e Ana Sofia rasparam juntos a cabeça dela no banheiro de casa. No primeiro dia em que ela saiu de lenço, os amigos do grupo formado com as famílias da turma da menina também apareceram de lenço.

Para Maria Amélia, não havia caminho melhor. Esconder um diagnóstico de uma criança, explica a psicóloga, costuma ser o pior deles, porque ela acaba descobrindo por outras bocas, e o mais saudável é responder com naturalidade ao que ela pergunta.

Sete anos depois

Terminado o tratamento, vieram sete anos de hormonioterapia, encerrados em junho deste ano, quando Katiude recebeu alta da medicação. Os retornos ao médico, por escolha dela, seguem a cada seis meses. Pelo histórico da mãe, ela e as duas irmãs fizeram o teste genético, e o resultado de Katiude apontou uma probabilidade, ainda que pequena, para útero e ovários, que acabaram retirados de forma preventiva. A irmã do meio, que também teve alteração no exame, passou pelo mesmo tipo de cirurgia.

O medo de a doença voltar, ela admite, existe. Foi justamente por querer respostas que trocou de médico logo no início, quando o primeiro sugeriu que ela fosse “aproveitar o que tem que aproveitar” em vez de fazer tantas perguntas. Hoje, Katiude treina três ou quatro vezes por semana, joga tênis (só no ano passado, levou três troféus) e mantém a alimentação que adotou durante o tratamento. Diz que saiu da experiência mais humana, mais paciente e com um gosto novo por pedir desculpas. “Eu cuido de mim para cuidar dos meus”, resume.

Conhecer o próprio corpo

Ouvindo o relato, a Dra. Letícia apontou o que Katiude fez de mais certo: conhecia o próprio corpo, percebeu a retração da pele e não esperou para procurar ajuda. A mastologista lembrou que o autoexame não serve como método de rastreamento, que o câncer de mama não se resume ao nódulo e que, pelo SUS, a mulher a partir dos 40 anos pode pedir a mamografia na UBS, com a solicitação de um médico. Em Iturama, segundo ela, o exame é feito no Hospital do Povo, com espera de cerca de um mês.

Maria Amélia, por sua vez, falou do que se passa na cabeça de quem adia o exame, um processo de negação que a psicologia compara ao luto, e de algo que vê todos os dias no consultório, mulheres que vivem com o espelho virado para os filhos, o marido e o trabalho. “Que dia você vai virar o espelho para você?”, provoca.

As explicações das duas, do teste genético à rede de apoio da família, estão nas notas especiais sobre a participação de cada uma: Dra. Letícia Garcia e Maria Amélia Mamede.

Ficou muita coisa boa de fora, e vale assistir ao episódio completo para ouvir sobre a diferença entre um exame de imagem e o teste genético, a tecnologia que fotografa o calor da mama, a frase que nunca se deve dizer a quem acaba de receber um diagnóstico e as respostas do Rodeio de Perguntas, incluindo a música que acompanhou Katiude durante o tratamento.

Pontal Cast #9: Outubro Rosa


Sobre o Pontal Cast

Toda semana, a bancada do Pontal Cast vira palco de uma nova conversa com as pessoas e os temas que movem o Pontal do Triângulo Mineiro. Novos episódios do podcast vão ao ar na quinta-feira, às 18h: inscreva-se no YouTube e ative as notificações para assistir, siga-nos no Spotify se prefere ouvir e acompanhe a gente no Instagram e no TikTok para não perder nenhum corte. Aqui, a gente triangula histórias. Do Pontal, pro Pontal.

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