Quando ouviu, na bancada do Pontal Cast, como Katiude Cavalhieri percebeu o câncer de mama em 2018, ao notar um afundamento na pele ao levantar o braço, a mastologista Letícia Garcia apontou na hora o que a paciente tinha feito de mais certo. “Primeira coisa foi reconhecer. Ela conhecia o próprio corpo”, disse.
É desse ponto de partida, o de que cada mulher precisa saber o que é normal no próprio corpo para perceber o que não é, que a médica do Centro Clínico de Iturama construiu boa parte das explicações no nono episódio do podcast de O Pontal News, dedicado ao Outubro Rosa.
Muito além do nódulo
O caroço é o sinal mais conhecido, mas está longe de ser o único, e nem todo nódulo pode ser sentido com a mão. Muitos são pequenos ou profundos e só aparecem nos exames de rotina. Segundo a Dra. Letícia, também merecem atenção a retração e o abaulamento da pele, uma inflamação que deixa a mama com aspecto de casca de laranja, alterações no mamilo e na aréola (como descamação), a saída de secreção e o aumento de gânglios, principalmente nas axilas e logo abaixo da clavícula. “A gente resume muito a nódulo, mas são todas essas alterações”, alerta.
Foi por isso que o autoexame mudou de papel. O INCA deixou de recomendá-lo como forma de rastreamento porque muitas mulheres apalpavam as mamas, não sentiam nada e acabavam abandonando os exames de rotina. O que continua valendo, explica a médica, é conhecer o próprio corpo, notar o que mudou e levar isso a um especialista. A dúvida é tão comum no consultório que ela costuma reforçar a diferença com quase todas as pacientes.
Os homens também entram na conversa. O câncer de mama masculino responde por cerca de 1% dos casos, e a mastologista conta ter visto dois ao longo da carreira. Em geral, o tumor é mais fácil de palpar, porque o tecido mamário é menor, mas a dificuldade é outra, que é convencer os homens a procurar o médico.
Mamografia a partir dos 40
Para mulheres de risco habitual, as sociedades brasileiras de mastologia e de radiologia recomendam a mamografia anual a partir dos 40 anos. O Ministério da Saúde, que concentrava o rastreamento a partir dos 50, ampliou recentemente o acesso para a faixa dos 40, diante do aumento de diagnósticos em mulheres mais jovens. Na prática, explica a Dra. Letícia, toda mulher a partir dos 40 anos pode fazer o exame pelo SUS, desde que passe por uma consulta na UBS para receber o pedido médico. Em Iturama, a mamografia é feita no Hospital do Povo e, segundo ela, a espera costuma ficar dentro de um mês.
Abaixo dos 40, o acompanhamento passa pelo exame físico nas consultas de rotina, e exames como o ultrassom são pedidos principalmente quando há queixa ou histórico familiar. Já o medo do aparelho, que ainda afasta muitas mulheres, pesa menos hoje. Os mamógrafos antigos comprimiam bastante a mama, enquanto os digitais, mesmo sem serem indolores, são bem menos desconfortáveis.
Quando a família acende o alerta
Ao saber que a mãe de Katiude teve câncer de ovário, a médica observou que a paciente poderia ter sido classificada como de alto risco e acompanhada mais cedo. Nesses casos, o teste genético que investiga mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, associadas a uma chance maior de câncer de mama e de ovário, ajuda a evitar diagnósticos tardios e tratamentos mais agressivos e, às vezes, a própria doença, por meio de cirurgias preventivas.
O exame ganhou fama há pouco mais de uma década com o caso da atriz Angelina Jolie, que retirou de forma preventiva as mamas e, depois, os ovários. Nem toda paciente opta por esse caminho, mas, para algumas, diz a Dra. Letícia, sobretudo do ponto de vista emocional, “isso é a solução da vida delas”.
Ela também desfez uma confusão comum, a de que o teste genético e o PET scan seriam a mesma coisa. O PET é um exame de imagem, que mostra alterações já instaladas no corpo, enquanto o teste genético trabalha no nível do DNA e indica a probabilidade de a pessoa desenvolver a doença.
O relógio do diagnóstico
Descobrir cedo, segundo a mastologista, muda praticamente tudo: o tipo de cirurgia, mais conservadora ou com a retirada da mama inteira, a necessidade de mexer nos linfonodos da axila e a chance de o tumor se espalhar pelo corpo. Há hoje estudos para tratar de forma cada vez menos invasiva e, em alguns casos, até evitar a quimioterapia e a radioterapia. “Quanto antes, menor o tumor, menor a chance de espalhar”, explica.
A lei garante 30 dias para fechar o diagnóstico quando há suspeita de câncer e 60 dias para começar o tratamento pelo SUS, mas, na experiência da médica, os prazos nem sempre saem do papel. No sistema público, os 30 dias costumam virar 40 e, às vezes, 60, porque há poucos centros especializados para uma procura cada vez maior, e as pacientes oncológicas seguem vinculadas aos serviços por muitos anos. “A gente deveria ter um pouquinho mais de investimento a nível já de tratamento especializado”, defende.
Tecnologia como aliada
Sobre os exames que dispensam o aperto, como o da startup brasileira Linda, que capta o calor da mama com um sensor infravermelho e usa inteligência artificial para apontar áreas suspeitas, a Dra. Letícia é otimista, mas cautelosa. A tecnologia pode ajudar mulheres mais jovens e cidades com poucos mamógrafos, ao indicar quem precisa de investigação, mas ainda não tem comprovação científica para ser usada sozinha no rastreamento e funciona como complemento, assim como o ultrassom. “Não substitui”, diz, sobre a mamografia. A inteligência artificial, por sua vez, já começa a chegar aos laudos e à tomossíntese, uma mamografia mais detalhada, ajudando a enxergar o que pode escapar aos olhos do especialista.
Quando a doença volta
Diante de uma pergunta sobre um caso em que o câncer voltou como metástase mais de 20 anos depois do primeiro tratamento, a médica explicou que células do tumor podem ficar adormecidas no organismo e, por algum gatilho que a ciência ainda não conhece, voltar a se multiplicar, mesmo depois de um tratamento feito corretamente. A volta pode acontecer na mesma mama, na outra ou em órgãos e ossos, o que os médicos chamam de doença à distância. “É mais comum do que a gente pensa”, afirma. Por isso o acompanhamento é tão longo, primeiro a cada seis meses, depois anual, com alta por volta dos dez anos e seguimento com o ginecologista ou o mastologista.
Quando há metástase, o câncer passa a ser tratado como uma doença crônica, e o objetivo é conter as lesões e impedir que cresçam, com acompanhamento pelo resto da vida. A médica lembrou ainda o quanto o tratamento mudou desde os anos 1990, quando a retirada da mama e de todos os linfonodos da axila era quase regra. Hoje, a análise desses linfonodos durante a própria cirurgia permite poupar a axila quando não há metástase, o que reduziu bastante os casos de linfedema, o inchaço crônico do braço.
No recado final, ela reforçou que o cuidado não pode ficar restrito a outubro. Alimentação ultraprocessada, álcool, cigarro e sedentarismo aumentam o risco de câncer, e não só o de mama. “Outubro é pra gente lembrar, né? É um movimento pra gente não se esquecer. Mas o ano inteiro é o ano da gente cuidar da gente”, resume.
Serviço
Dra. Letícia Garcia, mastologista, ginecologista e obstetra (CRM-MG 68.749 · RQE Mastologia 56675 · RQE Ginecologia e Obstetrícia 56674)
Centro Clínico Iturama · Avenida Campina Verde, 1741, Iturama (MG)
Agendamentos: (34) 3411-0531 e (34) 99971-8581 - Centro Clínico Iturama Official: Facebook | Linktree
Instagram: @leticiagarciamastologista
Assista ao episódio completo do Pontal Cast:





