Quando a apuração do 1º turno terminou, na noite de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) tinha 2.903 votos de vantagem sobre Lula (PT) na soma das seis cidades que cobrimos no Pontal. Três semanas depois, a distância encolheu para 350. O candidato do PL continuou à frente na região, com 50,34% dos votos válidos contra 49,66%, mas perdeu 88% da folga que tinha. O petista virou o resultado em Iturama e em Limeira do Oeste e ampliou a vantagem nas duas cidades onde já havia vencido.
O movimento acompanhou, em escala menor, o que aconteceu no estado. Em Minas, Flávio havia terminado o 1º turno com 48,24% dos válidos, contra 43,33% de Lula. No 2º turno, com 100% das urnas apuradas, Lula ficou com 50,43%, 109.313 votos à frente. No país, ele foi reeleito com 51,79%.

Duas cidades trocaram de lado
A virada mais expressiva aconteceu em Iturama, maior colégio eleitoral da região. Flávio havia vencido ali por 1.211 votos no 1º turno (49,84% a 44,15%). No 2º, Lula somou 11.525 votos contra 11.331 e terminou com 50,42%, uma diferença de 194. Em Limeira do Oeste, a disputa mais apertada da primeira rodada, decidida por 90 votos a favor de Flávio, se inverteu: Lula terminou 117 votos à frente (51,09% a 48,91%).
Nas outras quatro cidades, os vencedores se mantiveram, mas a diferença andou sempre na mesma direção. Lula alargou a vantagem em São Francisco de Sales, de 384 para 540 votos (57,33%), e em União de Minas, de 97 para 263 (55,27%). Flávio segurou Carneirinho (52,43%) e Campina Verde (55,17%), com margens menores. Com isso, o placar de cidades se inverteu: no 1º turno, o candidato do PL havia vencido em quatro das seis; no 2º, foi Lula quem levou quatro.
Coube a Campina Verde garantir a Flávio a vitória na soma regional. A vantagem de 1.158 votos que ele teve na cidade supera as de Lula em Iturama, Limeira do Oeste e União de Minas juntas (574).

De onde saíram os votos
Lula ganhou 4.220 votos no Pontal entre um turno e outro e cresceu em todas as seis cidades. Os dados do TSE são agregados e não mostram como cada eleitor votou, mas permitem fazer a conta do saldo. No 1º turno, os candidatos que ficaram pelo caminho somaram 2.833 votos na região: Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e os demais. No 2º, 2.571 eleitores a mais foram às urnas, e os votos brancos e nulos diminuíram em 483. Somadas, essas três parcelas dão 5.887 votos, exatamente o que os dois finalistas cresceram juntos: 4.220 para Lula e 1.667 para Flávio. O petista ficou com cerca de 72% desse saldo.
A mesma conta mostra que nenhuma dessas fontes, sozinha, explica o avanço. Se Lula tivesse herdado todos os 2.833 eleitores dos candidatos eliminados, ainda faltariam 1.387 votos para chegar ao que ele cresceu. Esses votos só podem ter saído de quem não foi votar, votou em branco ou anulou no 1º turno, ou de quem trocou de candidato. O raciocínio inverso também vale: os novos eleitores e os ex-brancos e nulos somam 3.054 votos, menos que o crescimento de Lula. O padrão se repete em cada uma das seis cidades.
E houve troca direta de Flávio para Lula? Os números não permitem afirmar. O que eles mostram é que o candidato do PL também ganhou votos nas seis cidades, o que descarta uma perda líquida de eleitores. Se houve gente mudando de lado, esse movimento ficou escondido no saldo, compensado pelos votos novos que Flávio também conquistou.

Mais gente nas urnas
A participação ajuda a dimensionar o peso dos novos eleitores. A abstenção no Pontal caiu de 24,37% para 20,53%, uma redução de 3,84 pontos, maior que a de Minas (2,48 pontos) e a do Brasil (1,86). Iturama, que tinha a abstenção mais alta da região no 1º turno (26,50%), foi onde ela mais recuou: 4,49 pontos, ou 1.345 eleitores a mais. Também foi ali que Lula mais cresceu, com 2.123 votos novos, metade de todo o seu avanço no Pontal.
Limeira do Oeste fechou o 2º turno com a menor abstenção das seis cidades, 16,74%. Brancos e nulos recuaram em todas elas e, somados, passaram de 3,45% para 2,37% dos votos na região.

Mesmo com a virada no estado, o Pontal terminou mais favorável a Flávio do que Minas e o país: os 50,34% dele na região ficaram 0,77 ponto acima do resultado estadual e 2,13 pontos acima do nacional. A região que no 1º turno teria dado a ele a vitória sem segundo turno terminou a eleição dividida quase ao meio.
Como fizemos: os resultados das seis cidades foram consultados na plataforma de eleições da ALMG, que reproduz os dados do TSE, com 100% das seções totalizadas. Os números de Minas e do Brasil são os resultados finais. Os percentuais dos candidatos são calculados sobre os votos válidos. O saldo entre os turnos é uma conta feita com dados agregados e não indica o voto de cada eleitor.





