Era por volta das 21h de terça-feira (27) quando a guarnição do Corpo de Bombeiros de Iturama chegou a um canavial às margens da BR-497, na altura do km 740, zona rural de Carneirinho. Deitada sobre a palha seca da cana estava uma loba-guará adulta, debilitada e com suspeita de fratura numa das patas.
Com paciência e equipamento próprio para esse tipo de captura, os militares do 8º Pelotão conseguiram conter o animal sem agravar os ferimentos, de acordo com a corporação. Ainda naquela noite, os bombeiros e o cardiologista José Ribeiro Garcia encaminharam a loba para a VetCenter Clínica Veterinária, em Iturama, onde ela ficou sob os cuidados do veterinário Lucas Perroni.
Referência regional no acolhimento de animais silvestres, José Ribeiro cuida de graça dos bichos resgatados, na própria casa, e recorre a veterinários parceiros quando o caso exige tratamento especializado. Não é o primeiro animal tirado de um canavial da região que passa pelas mãos dele: em maio, um filhote de onça-parda abandonado perto de Iturama também recebeu seus cuidados.
Fratura exposta
Pelo relato do médico, o quadro era grave. “Está muito mal, fraturou uma perna, fratura exposta, tem bicho e não está muito bem não”, disse José Ribeiro em áudio enviado ao O Pontal News na quarta-feira (28).
Os exames feitos na clínica confirmaram a gravidade. Segundo Perroni, a loba tinha uma fratura exposta na tíbia, o osso da perna, com muitas larvas na ferida, necrose do pé e comprometimento total do membro. Também estava muito magra, abaixo do peso ideal, e apática.
Pouco antes da cirurgia, José Ribeiro adiantou a decisão da equipe: “Ele vai operar o lobo agora, vai amputar a perna”. A amputação foi feita no mesmo dia. A recuperação deve ser lenta, mas o veterinário vê grande possibilidade de restabelecimento.
Depois do tratamento, a loba seguirá para centros de reabilitação, onde passará por nova avaliação para definir o destino: a soltura, a permanência num centro de reabilitação ou a transferência para um mantenedor de fauna.
À beira da estrada
A causa da fratura não foi informada, mas José Ribeiro lembra que a fauna da região costuma cruzar a rodovia durante a noite. “Esses animais costumam à noite deslocar pela rodovia, e acontece o atropelamento de vários animais, principalmente tamanduá. Lobo tem aparecido, não com muita frequência, mas isso acontece sim.”
Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará chega a 90 centímetros do chão ao ombro, quase a altura de uma bancada de cozinha, e pesa de 20 a 30 quilos na fase adulta. Na lista oficial de espécies ameaçadas do Brasil, aparece como vulnerável.
Entre as principais ameaças está justamente o atropelamento. Segundo o ICMBio, a maioria dos lobos atropelados são jovens em fase de dispersão, que deixaram a área onde nasceram em busca de território próprio.
Encontrou um animal ferido?
Quem cruzar com um animal silvestre machucado não deve tentar capturá-lo nem levá-lo para casa. O caminho é acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193, informando o local com a maior precisão possível.
Num dos áudios enviados à reportagem, entre uma informação e outra sobre o estado da loba, José Ribeiro não escondeu a admiração pelo bicho: “É uma beleza, um animal tão bonito”.
José Ribeiro Garcia e o subtenente da reserva José Cleiton Dias de Oliveira relembraram, no 5º episódio do Pontal Cast, a parceria de mais de uma década em defesa da fauna silvestre no Pontal.
Fontes dos dados sobre a espécie: Instituto Pró-Carnívoros e ICMBio, citado pela National Geographic Brasil.





