Documentos, fotografias, preciosos registros históricos fundamentais para entender a evolução de Iturama: tudo isso já esteve, literalmente, jogado no lixão perto do antigo matadouro da cidade. O material era preservado pelo prefeito Pedro de Paula (1967-1971) e foi descartado por uma administração posterior que, claramente, era desprovida de qualquer apreço pela história e pela cultura do município. A professora Aldeni Janones e sua equipe reviraram o lixo para salvar fragmentos do passado que alguém havia decidido condenar ao esquecimento. Sob a tutela de Aldeni, o material passou a integrar um acervo pessoal que virou fonte de pesquisa.
Essa foi só uma das muitas histórias que vieram à tona no primeiro episódio do Pontal Cast — o novo podcast semanal de O Pontal News. Na estreia, convidamos dois nomes que carregam nas costas a memória de Iturama: a Sra. Aldeni Janones, profunda conhecedora da história local, ex-Secretária de Cultura e idealizadora da Casa da Memória; e o Sr. Edson Moysés, histórico jornalista que, por mais de 50 anos, documentou o dia a dia da cidade à frente de seu jornal O Pontal (trabalho que este veículo tem a honra de dar continuidade). Eles são os Guardiões da Memória ituramense, e nos presentearam com uma conversa extremamente rica.
Meio século de jornal
Seu Edson, hoje aos 95 anos e esbanjando lucidez, era só um menino quando visitou o avô em Catanduva, no interior de São Paulo, e viu de perto a tipografia e o jornal da família. Bastou isso pra decidir o que ia ser quando crescesse. Décadas depois, já morando em Campina Verde, ficou sabendo que Iturama crescia depressa e tinha muita demanda pelos serviços tipográficos que ele prestava — foi aí que decidiu se mudar para cá. No dia 15 de março de 1968, saiu a primeira edição do jornal O Pontal, batizado assim por causa da posição estratégica da região, na divisa entre Minas, São Paulo, Goiás e Mato Grosso.
O jornal foi impresso até 2020. Continuou dois anos só na internet, até Seu Edson se aposentar. Em meio a polêmicas, altos e baixos, muito idealismo e responsabilidade jornalística, o veículo noticiou por mais de meio século, em um período crucial do desenvolvimento de Iturama, os principais fatos que marcaram os rumos da região. Ciente da relevância pública de seu acervo à sociedade, tentou doá-lo à Prefeitura, mas a oferta foi recusada por falta de espaço. “Da mesma maneira que a Aldeni encontrou lá no lixão, eu também encontrei muitos fatos que foram jogados fora, coisas históricas, documentos”, diz. Para evitar que seu acervo jornalístico tivesse o mesmo fim, Seu Edson doou o material ao Dr. José Ribeiro, que também cuida de animais silvestres resgatados.
De porta em porta, abrindo baús
Hoje com mais de 70 anos, aos 14 Dona Aldeni já lia o jornal de Seu Edson e sempre admirou seu trabalho. Tempos depois, já como professora alfabetizadora, ela começou a bater de porta em porta pedindo fotografias antigas emprestadas para montar aulas sobre a história do município, numa época em que as fotos ficavam em baús empoeirados e as famílias, supersticiosas, muitas vezes se recusavam a emprestar. Com esse trabalho de formiguinha, ao longo de décadas, ela construiu a base do que veio a se tornar a Casa da Memória que carrega seu nome — único bastião de preservação do patrimônio histórico e cultural da cidade.
"Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai"
É a frase que Dona Aldeni tem para si como um mantra, e que resume bem o motivo de ela ter insistido por tanto tempo numa causa que, segundo ela mesma reconhece, nunca deu retorno ou teve respaldo político. O fio condutor de boa parte da conversa foi um problema que os dois convidados descrevem sem meias palavras: a falta de continuidade de projetos, o descaso com a memória e a cultura, com bens materiais e imateriais que não deveriam estar sujeitos aos interesses momentâneos da política. São patrimônios do povo. Prédios que poderiam ter sido tombados, como a antiga Pensão da Tuta, a primeira da cidade, onde Juscelino Kubitschek chegou a almoçar, e outros edifícios públicos e privados de interesse histórico, são vendidos e demolidos. Enquanto projetos de resgate e valorização da memória nunca saem do papel.
Móveis coloniais do primeiro fórum da cidade foram serrados, por ordem judicial, para virar mesinha de creche. Dona Aldeni lembra ainda que Iturama está prestes a completar 130 anos de fundação e até hoje não tem sequer um museu de verdade, ou um cantinho decente para quem visita a cidade poder tirar uma foto. Durante seus anos de incansável batalha na Prefeitura, ela ouviu de um vereador a seguinte frase: "A cabeça da senhora não cabe em Iturama, a senhora tem que mudar daqui para não morrer frustrada, porque as coisas que a senhora pensa para Iturama são grandes demais, não funcionam. Pense mais modestamente.”
Tem muito mais na conversa
Falamos também sobre a fundação de Iturama em 1897 pom Dona Francisca Justiniana de Andrade, a partir de uma promessa religiosa que levou 25 anos para ser cumprida; sobre os sonhos parados de um mercado municipal e de um monumento aos tropeiros na Praça Santa Rosa; sobre o que cada um dos dois guardaria, se pudesse escolher só uma coisa, para contar pra próxima geração sobre a nossa cidade. E muito mais!
Assista ao episódio completo no vídeo abaixo — e já aproveite para nos seguir no YouTube e ativar as notificações para não perder os próximos episódios.
Sobre o Pontal Cast
Toda semana, a bancada do Pontal Cast vira palco de uma nova conversa com as pessoas e os temas que movem o Pontal do Triângulo Mineiro. Novos episódios do podcast vão ao ar na quinta-feira, às 18h: inscreva-se no YouTube e ative as notificações para assistir, siga-nos no Spotify se prefere ouvir e acompanhe a gente no Instagram e no TikTok para não perder nenhum corte. Aqui, a gente triangula histórias. Do Pontal, pro Pontal.
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