Do telhado, restaram vigas carbonizadas sustentadas por escoras de madeira queimada. No chão, uma camada grossa de cinzas se mistura a telhas partidas, entulho enegrecido e objetos carbonizados — foi tudo o que restou da sala e dos cômodos onde Raiane Ferreira criava a pequena Maitte Flora, sua filha de 2 anos, em Iturama. Há poucos dias, elas viviam normalmente e jamais poderiam imaginar que, de repente, precisariam recomeçar do zero. É o custo alto que uma mulher pode pagar por dar uma segunda chance a um parceiro agressor.
O incêndio aconteceu na madrugada de sábado (15/8) no bairro São Miguel, por volta das 23h40. Horas antes, Raiane e o ex-marido haviam discutido em uma lanchonete da cidade: uma briga que, segundo ela, chegou a desandar para a agressão em público. Depois da discussão violenta, o homem saiu correndo e Raiane ficou no local com a polícia, registrando um boletim de ocorrência sobre as ameaças que vinha recebendo.
Foi então que uma vizinha ligou avisando que a casa dela estava sendo consumida pelas chamas.
"Eu perdi o chão, minhas pernas não se moveram mais", conta. Raiane não teve reação, foram os vizinhos que acionaram os bombeiros e ajudaram a conter o fogo com mangueiras, enquanto ela era levada de ambulância ao hospital. O incêndio foi tão intenso que um caminhão não bastou — o pelotão de Iturama teve que mandar um segundo veículo para conter as chamas.
Raiane e o ex-marido ficaram juntos por cerca de dois anos. Separaram-se uma vez, mas reataram: ela acreditou em suas promessas e aceitou dar a ele uma segunda chance para que pudesse criar a filha pequena. Diz que os episódios mais graves de agressão e violência aconteciam quando ele bebia ou usava drogas, e vinham sempre acompanhadas de acusações sem fundamento e brigas que se repetiam à exaustão. "No fim, o prejuízo foi muito maior", resume a vítima. O homem nega ter colocado fogo na casa e segue foragido.
São dois os indícios que, segundo Raiane, o incriminam: uma foto publicada por ele mesmo no WhatsApp, horas depois, vestindo uma camisa que ela havia acabado de pendurar no cabide dentro do armário. E o sumiço de um isqueiro guardado num ponto da cozinha que o fogo não atingiu. Com essas duas provas, ela não tem dúvida de que o homem esteve dentro da casa e foi o responsável pelo incêndio criminoso. O caso é investigado pela polícia.
"No primeiro sinal, corte contato"
A história de Raiane chega em meio ao Agosto Lilás, campanha de conscientização para o fim da violência contra a mulher instituída pela Lei Federal nº 14.448/2022 em referência à Lei Maria da Penha, que foi sancionada em 7 de agosto de 2006 e acaba de completar 20 anos. Infelizmente, o episódio está longe de ser um caso isolado: Minas Gerais soma 78 feminicídios apenas no primeiro semestre deste ano, segundo a Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública. O Brasil fechou 2025 com 1.571 vítimas de feminicídio — o maior número da série histórica, alta de 4% sobre o ano anterior, aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Atrás de cada número há uma família destruída, uma vida perdida ou que precisa recomeçar, uma casa incendiada. É por isso que Raiane insiste em alertar, mesmo com a dor ainda recente: "No primeiro sinal, corte contato, saia, não dê oportunidade em cima de oportunidade, porque uma hora pode ser fatal", reforça, se perguntando o que teria acontecido se estivesse dentro de casa naquela noite. Provavelmente, ela e sua filhinha teriam virado estatística deste crime covarde que, todos os dias, afeta milhares de mulheres pelo país afora.
Se você ou alguém que você conhece vive uma situação de violência doméstica, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona 24 horas, todos os dias, com atendimento gratuito e sigiloso. O número já registrou mais de um milhão de ligações em 2026 — equivalente a 95% do total de chamadas no ano passado. Caso a violência esteja em andamento, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo 190.
Recomeçar das cinzas
Por enquanto, Raiane e Maitte estão hospedadas na casa da mãe e do padrasto, "protegidas e seguras", enquanto tentam entender o tamanho do estrago. Antes será preciso terminar a limpeza — só depois vai dar para avaliar se a estrutura resistiu ou se paredes precisarão ser derrubadas. Nas redes sociais, ela conta com o apoio da comunidade e pede a quem puder para que participe de sua rifa solidária para ajudar na reconstrução, com números a R$ 30 e prêmio de R$ 1.000.
Roupas, brinquedos e calçados já chegaram em grande quantidade: a prioridade agora é pagar pelo material de construção e a mão de obra para refazer o telhado. Quem quiser ajudar pode fazer um Pix para a chave 13671025611 (Raiane Aparecida Ferreira Silva, Nubank) e entrar em contato pelo Instagram @araianef ou pelo WhatsApp (34) 99897-4259.
Na semana que vem, o terceiro episódio do Pontal Cast, nosso podcast semanal com as histórias e convidados que movem o Pontal do Triângulo Mineiro, será dedicado ao tema da violência contra a mulher. Teremos duas convidadas especiais para aprofundar este debate e reforçar o Agosto Lilás. Acompanhe por nossas redes sociais, pelo YouTube ou Spotify. Siga-nos!





